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Biologia Subterrânea

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Desafios na conservação de habitats subterrâneos

Desafios na conservação de habitats subterrâneos: recursos hídricos em áreas de elevado endemismo de espécies troglóbias no Brasil e na Eslovênia

Habitats subterrâneos abrigam freqüentemente espécies animais únicas, especializadas a um conjunto de condições ambientais pouco usuais, que incluem a ausência permanente de luz e a variação ambiental pouco pronunciada. A composição da fauna subterrânea pode ser uma importante indicadora da qualidade das águas subterrâneas bem como dos próprios habitats subterrâneos como um todo. No entanto, em uma escala global, os padrões gerais de biodiversidade subterrânea são distintos. O carste esloveno situado na região temperada compreende o principal hotspot de biodiversidade subterrânea do mundo. Embora contínuos estudos bioespeleológicos venham sendo desenvolvidos na região desde o início da década de 1830, novas espécies ainda têm sido descobertas e descritas. Por outro lado, a realidade do Brasil é distinta, especialmente no que diz respeito ao nível de conhecimento acerca da fauna subterrânea. Embora até alguns anos apenas pouco mais de 130 espécies troglóbias fossem conhecidas no país, pesquisas realizadas em diferentes áreas do Brasil nos últimos anos revelaram um grande número de espécies troglóbias, praticamente todas pertencentes a novas espécies, gêneros e famílias. Durante décadas, pesquisadores acreditaram que a região Neotropical abrigaria poucas espécies troglóbias, principalmente devido à menor severidade climática nos trópicos durante o último máximo glacial comparado às regiões temperadas. Os principais modelos que assumem o isolamento e a evolução de espécies em ambientes subterrâneos baseiam-se nestas mudanças climáticas ocorridas nos máximos glaciais. Entretanto, a grande quantidade de espécies descobertas em cavernas brasileiras especialmente nos últimos 5 anos, muitas das quais com elevado grau de troglomorfismo, indicam que as mudanças climáticas ocorridas na região Neotropical, mesmo não tendo sido tão severas quanto em regiões temperadas, também levaram ao isolamento de muitas linhagens no meio subterrâneo. Além disso, outros mecanismos de isolamento ou especiação (especiação parapátrica, introgressões e regressões oceânicas) podem também ter contribuído para a evolução de muitas linhagens subterrâneas no Brasil. Finalmente, confrontando as faunas subterrâneas destes dois países, o já estabelecido hotspot de biodiversidade subterrânea (Eslovênia) com a “emergente” fauna troglóbia surpreendentemente rica do Brasil, existem muitos temas desafiadores a serem tratados. Dentre eles, destacam-se os grandes impactos ocorrentes nos sistemas externos, que ameaçam a qualidade dos habitats subterrâneos. Tais impactos requerem ações emergenciais, que visem reduzir os efeitos das alterações externas sobre os sistemas subterrâneos. Tanto o Brasil, que ainda apresenta-se em um nível extremo de desconhecimento acerca da fauna subterrânea, quanto a Eslovênia, que possui um notável conhecimento sobre a fauna hipógea (em função clara da “maturidade” da bioespeleologia no país associada à pequena dimensão do seu território comparado ao Brasil) deve ter extrema atenção com relação às ameaças sobre os habitats subterrâneos. Muitas destas ameaças encontram-se em pleno desenvolvimento e o nível de destruição, em certos casos (como minerações e construções de estradas) é enorme. O conhecimento abrangente do meio subterrâneo é a base para aumentar a consciência, na população, sobre a riqueza e a diversidade das espécies associadas a estes ambientes, bem como sobre sua vulnerabilidade. O presente projeto pretende comparar as ameaças aos habitats subterrâneos bem como avaliar os sistemas de proteção vigentes em ambos os países (a legislação existente e a maneira como a mesma é executada em cada país), relacionando estes aspectos aos dados na biodiversidade subterrânea. O estudo será desenvolvido utilizando-se dois sistemas de alta relevância bioespeleológica (o sistema de Areias, no Brasil e o sistema de Postojna-Planina, na Eslovênia) que serão comparados com o objetivo de se avaliar o "status" das espécies troglóbias presentes bem como relacionar este status com a qualidade da água em cada um dos sistemas. O sistema Areias é composto por três cavernas com drenagem hipógea perene (cavernas Areias de cima, gruta do laboratório e Areias de baixo) que apresenta 22 espécies troglóbias/troglomórficas em habitats aquáticos e terrestres. O sistema Postojna-Planina compreende um rio hipógeo (Pivka river) com aproximadamente 30 km de comprimento e mais de 130 espécies de animais troglóbios descritos. Para elucidar lacunas no conhecimento e os padrões da biodiversidade subterrânea no Brasil serão utilizadas informações oriundas da coleção bioespeleológica da Universidade Federal de Lavras que conta com informações georreferenciadas de mais e 700 cavernas amostradas desde o ano de 1999 em cavernas da Mata Atlântica, Cerrado, Caatinga e Amazônia. Os espécimes de invertebrados encontram-se depositados na coleção do Setor de Zoologia do Departamento de Biologia da Universidade Federal de Lavras. O projeto em cooperação possibilitará a contextualização das cavernas em relação ao estado de conservação do seu entorno, possibilitando propor diretrizes para a conservação daquelas mais ameaçadas devido à presença de espécies restritas, a perda da cobertura vegetal do seu entorno, freqüência de visitação e outros impactos antrópicos. A disponibilização dos dados biológicos será de fundamental importância na elaboração de estratégias para a proteção das cavernas, incluindo a fauna e as águas subterrâneas, além de sua disponibilização, em forma de artigos científicos. Além disso, com os dados que serão obtidos neste projeto espera-se obter um amplo panorama da diversidade subterrânea destes dois países, além de ser possível evidenciar alguns padrões gerais de estrutura das comunidades e evolução de taxa associados às cavernas destes importantes centros de endemismos subterrâneos.

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